terça-feira, 18 de agosto de 2009

Educação Superior e seus LUGARES ÊMICOS de seletividade

Sempre vinculado ao campo da educação, parto para uma reflexão sobre quatro pontos a meu ver interessantes. Em Modernidade Líquida (2001), o sociólogo polonês Zygmunt Bauman escreve sobre estratégias de relação humana a partir da ideia de alteridade. Para isso, vai buscar em Claude Lévi-Strauss (Tristes Trópicos) dois conceitos que valem o debate. O antropólogo fala de relações antropoêmicas e antropofágicas. Neste breve registro, falo sobre os lugares êmicos.

Bauman relaciona o conceito a espaços urbanos contemporâneos (os quais ele descreve como "públicos-mas-não-civis"), cuja concepção envolve o desconforto da presença. São lugares sem hospitalidade; ainda que "inspirem respeito", concomitantemente "desencorajam a presença". Lévi-Strauss, ao falar das estratégias antropoêmicas de convivência humana, refere-se a um processo de rejeição a qualquer forma de interação social com estranhos. "Os de fora" são regurgitados, lançados ao exílio. Na expressão de Bauman, o refinamento dessa estratégia é a seletividade dos espaços ou de seu uso.

Minha proposição é a de que esse refinamento pode também ser aplicado ao contexto do ensino superior. Primeiramente pela própria lógica de seletividade aos nobres espaços acadêmicos, reconhecidos como prêmios para merecedores. Nas instituições de ensino públicas e gratuitas há a seletividade intelectual como legitimidade para o acesso; o ambiente é para os "melhores". Nas instituições privadas há a seletividade econômica; o ambiente também é para os "melhores", mas que possam pagar. "Os de fora" são sempre estigmatizados por alguma incapacidade.

Além disso, a própria estrutura desses espaços opõe nichos e guetos a partir de concepções ideológicas, muitas vezes confundidas com epistemológicas. Com a fragmentação do conhecimento e as disputas por capital político no contexto das instituições de ensino, há uma espécie de "segregação" ao que não é reconhecido como pertencente ao espaço em questão. As estratégias antropoêmicas de Lévi-Strauss, os lugares êmicos de Bauman, regurgitam o próprio sentido de educação e aniquilam as diferenças. Por princípio.


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